quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Liberdade de espírito

A liberdade de espírito só é conquistada a muito custo, seja pela auto-destruição, pelo esmagamento próprio de si, sua cultura, valores, crenças, seja pelo confinamento desses elementos em um recanto escuro e sujo de nossa mente.



Ora, é então na segunda opção que realmente nos destruímos, nos violentamos, pois receber cultura-outrem apesar dos meus valores, ainda que escondidos, me remeterá a uma angústia tremenda, uma anulação verdadeira de si. De fato, esconder essas apreciações de um suposto Bem é como esconder instintos, é uma bomba-relógio, uma hora vai explodir. Ou pelo tempo que está reclusa ou pelo volume de paixões repelidas.


A destruição de valores próprios, por sua vez, não é uma violência, primeiro, por não doer, segundo por relegar ao nada o que pode me prejudicar, atrasar, afastar do meu objetivo, diminuir minha vontade, ainda que escondido. Não dói nada já que está enraizado na minha vontade o anular de minha cultura, não está em anular a mim mesmo. O que me anula? Negar meu Eu, e o meu Eu são meus valores, sejam eles políticos, religiosos, morais etc.

Não se pode nada desejar, nada querer, sonhar ou pensar, a não ser se falarmos aqui naquela auto-manipulação psicológica característica do esoterismo que consiste em alterar minha consciência, elevá-la a planos mais altos, chegar ao meu Eu Superior, que não sei se posso encarar como algo diferente de um sonho até pela minha ignorância sobre o assunto. Se é impossível, então toda anulação do Eu é fantasiosa, trata-se apenas, na vida da abnegação religiosa, por exemplo, de trocar meus ideais e vontades pelo que me é estranho. O que me é estranho eu torno próximo até absorver por minha vontade, a mesma vontade que nega a cultura antiga que eu abandonara, a mesma vontade que me torna eu mesmo, que é minha identidade, meu Eu.


Logo, é fantasiosa essa procura do fim de Si pela comunhão com Deus, consigo mesmo ou com qualquer deus ou entidade que seja um não-Eu. Essa ação é deliberada, é uma busca do fenômeno religioso, por ser busca é uma ação da minha vontade, faz parte do meu Eu mais profundo ou mais cínico e utilitarista. E durante? Busca inconsciente? Talvez, mas nem sempre. O budismo, então, não é uma mentira, é, na verdade, a superação da razão prática, do meu eu superficial que se preocupa com as chamadas ‘coisas do mundo’ para atingir o estado de iluminação, que seria como o mundo das Ideias de Platão ou algo próximo, o máximo que o homem chega do Inteligível, do Bom, do Belo em si, da coisa em si, como diria Kant. Pressupõe uma hierarquia de conhecimento da Verdade Absoluta, e um conhecimento das coisas práticas, das sombras, nos exercita para nos superarmos e chegarmos ao que a razão humana pode entender, mas só a muito custo, a muito disciplinamento do corpo. Aí temos a ideologia metafísica, moral e religiosa por excelência: ‘ o corpo é corruptível, logo é inferior á alma, que é eterna, assim o que é do corpo, as sensações e o mundo visível, visto ser apreendido pela visão e outros sentidos do corpo, é uma visão imperfeita de mundo. Só o que apreendo pela alma, que é incorruptível e perfeita, é verdadeiro, bom e belo em si mesmo, o resto é carnal, imperfeito. Da mesma forma, as paixões vêm dos sentidos, do que é mundano e o que é da alma, do espírito, é virtuoso. ’Moral grega que fundamenta sua política, ou vice-versa, e daí cria-se uma visão de mundo baseada nessa moral, nessa ideologia, que impregnaria o Ocidente por dois mil anos e não está de todo superada.


A elevação sobre a minha cultura é um vôo do meu Eu, uma superação dos meus valores. Para essa elevação ser mais que uma fantasia, um interesse bobo, uma curiosidade vã, uma ilusão, é necessário:


1-Conheça diversas formas de se pensar, de se conceber o mundo, não relativize as opiniões, mas as encare como formas diferentes de se ver a mesma verdade, seja ela qual for, mas sabendo que ela existe. Ou não.


2-É preciso ter uma grande vontade para voar acima de si mesmo, ter um Eu profundo. Isso significa ser livre de preconceitos, amores e ideais imutáveis, ter senso e intelecto para conhecer, analisar, criticar as ideologias vigentes e, ao mesmo tempo, conviver com elas sem se comprometer. É preciso ter intelecto para isso, mas é preciso ter uma vontade maior ainda, um sentimento de poder fazer, mudar, pensar. Depois vem a filosofia, primeiro o filosofar.


3-Os seus valores éticos, morais, religiosos, quais seja eles, devem não ser confinados, mas elevados em compreensão. Entenda o que você acredita e entenderá a si mesmo. O ‘conhece-te a ti mesmo’ nasce aqui, depois de conhecer o que outros acreditam dentro do grande projeto da vida, que pode ser visto como cosmo ou caos.


4-Não imponha o seu Eu a ninguém, nem a si mesmo, para que possa entender o outro em sua completude e seus valores e para não se prender em sua própria cultura, o que lhe seria cadeia de pensamento, reflexão, de conhecimento. Absorva tudo a seu redor, depois dissipe, guarde apenas na lembrança, nunca no coração. A pior prisão é o amor, o pior amor é o amor pelas idéias.


Só pra terminar, esse texto foi mais um desabafo, uma descrição do meu momento atual que uma guia, manual ou um catecismo para o espírito livre. Faça você o seu manual, nem creio que eu tenha autoridade alguma nem creio que qualquer poder nesse mundo possa lhe dizer o que pensar e fazer. O guia é a filosofia, o motor é o filosofar, mas tudo começa com o Eu e eu deixo isso como uma leitura interessante. Mas por favor não sou um doutrinador, sou contrário a esses vermes. Totalmente.

Bom dia e boas reflexões.


Um comentário:

Honestino Afonso Xavier disse...

ficou legal o blogger

quando der visite o meu

deixe recados..

abraço


uma experiência com Deus é unica. pelo que vi no seu outro campo do blogger. .vc já encontrou. bom pelo que li sim..

se nao, fica apenas um convite.

Leitura da primeira Epístola do Apóstolo S.Paulo a Timóteo. cap-2 de 3 a 6:


3 Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,

4 Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.

5 Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.

6 O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.